Senhoras e senhores Mr. Fraga

Nos últimos anos Minas tem exportado talentosos estilistas para o Brasil e para o mundo e nós estamos sempre falando sobre essa nova geração, mas hoje eu quero falar de um veterano e alguém que quando eu penso em moda masculina é o primeiro nome que vem em minha mente, ele é uma grande inspiração e referência para a nova geração e é dono de um currículo invejável, vejam:

Formou-se em Design de Moda no Chelsea College of Art em Londres e apresentou suas primeiras propostas masculinas no Chelsea College festival como conclusão do curso.
* Na sequencia se apresentou na London Alternative Fashion Week.
* Com sua primeira coleção em solo brasileiro, homenageou o primeiro palhaço negro do mundo Benjamim de Oliveira desfilando na Semana de Moda do Rio numa noite dedicada a novos designers.
* Inaugurou o anexo da biblioteca publica de Belo Horizonte na praça da Liberdade com sua segunda coleção intitulada Blue, em homenagem ao cineasta britânico Derek Jarman
* Participou do line up da Casa de Criadores em São Paulo por 3 edições.
*Como marca convidada, migrou se para o São Paulo Fashion Week onde participou de 4 edições apresentando coleções masculinas autorais. * Em 2012 fez o primeiro e único evento multi mídia de moda no até então recém inaugurado Sesc Palladium, unindo fotografia, vídeo, cinema e desfile em uma retrospectiva da sua carreira.
* Lançou no mesmo evento o seu primeiro curta metragem onde estreou como diretor, roteirista, diretor de arte e assinou os figurinos.
* Ao longo da carreira foi premiado pelos figurinos incríveis que desenvolve para espetáculos cênicos.
* Recentemente desenvolveu o figurino para o projeto Música de Brinquedo 2 da banda mineira Pato Fu.
* Atualmente é diretor artístico e responsável pela concepção visual da nova banda alternativa mineira Lafetah.
* Começou a pré produção do seu segundo curta metragem e ainda tem tempo para atender os seus clientes que prezam pela sua excelência no que faz.
Ufa! São tantos feitos que haja espaço para falar de tudo em uma entrevista, eu nem imaginava que ele teria um tempinho, mas com todo carinho e atenção ele veio ao Trendy Dudes para um bate papo e é com muito prazer que recebemos o querido Rodrigo Fraga, ou Mr. Fraga para falarmos de moda, música, cinema e carnaval!
1 – Primeiramente é um prazer imenso te receber para esse bate papo, muito obrigado!  Bom diante desse currículo e de todos esses feitos eu não posso deixar de perguntar por que você deixou as passarelas e começou a se dedicar ao atelier, ao atendimento mais íntimo, sofisticado e personalizado?

Com perdão pelo trocadilho, para quem sabe a diferença entre sexo por prazer e por obrigação me entenderá facilmente.Eu adoro a magia dos desfiles, mas estar inserido dentro de um calendário com o compromisso de fazer desfiles de 6 em 6 meses e ainda cuidar da produção, venda e distribuição, o prazer foi sendo tomado pela obrigação e aos poucos se tornando um fardo pesado. É que na época que eu desfilava, eu estava ainda com a minha estrutura em formação e portanto eu não cuidava apenas dos desfiles. A falta dessa estrutura operacional compatível com os altos investimentos em desfiles me fez repensar se estava sendo coerente não conseguir colher frutos de tais investimentos. Existia uma enorme demanda, mas por conta desses fatores as coleções estavam sendo vendidas em poucos pontos de venda, contudo a experiencia foi super válida no âmbito de ter meu trabalho conhecido mais amplamente e adquirir o respeito pelo meu talento próprio. Eu e o Ronaldo somos os únicos irmãos estilistas atuantes aqui no Brasil e para mim que tinha acabado de chegar, achei importante que todos vissem claramente as diferenças entre nossos trabalhos pois eu não nasci para viver na sombra de ninguém. Eu decidi então dar uma pausa nos desfiles e me dedicar a uma proposta de trabalho mais leve, sofisticada e exclusiva onde eu conseguisse ter um controle maior nas questões que eu considero importante como qualidade dos serviços prestados. Ter essa linha paralela de alfaiataria e roupas em geral sob medida já era um projeto antigo, achei oportuno o momento para iniciar. Era necessário tempo, foco e dedicação para adquirir conhecimento e aprimora los. Dessa forma sim, hoje meu trabalho tem me dado um enorme prazer e também reconhecimento.   

2 – Você por sete anos viveu em Londres, se formou na Chelsea e se apresentou no London Alternative Fashion Week, quando voltou para o Brasil como foi desenvolver uma coleção para um país com uma cultura completamente diferente?

Quando eu retornei ao Brasil, a internet através da evolução tecnológica já sinalizava que o mundo era um só e que a moda e sua linguagem também. Eu nunca pensei em criar para o publico mineiro, paulista, carioca ou brasileiro. Sempre criei pensando em ser compreendido em qualquer lugar do planeta. A minha roupa e meu estilo não falam de uma cultura específica e sim de afinidades. Quem se identificar ótimo, quem não se identificar, ótimo também. Se eu voltar para Londres agora, ou Milão, Paris e ate mesmo Tóquio eu criaria da mesma forma que eu crio aqui hoje e certo de que meu trabalho seria compreendido.

3 – Você está na pré-produção para o seu segundo curta metragem, existe algo que você possa adiantar para nós?

Eu já tenho o roteiro, os figurinos, locações e toda equipe formada mas por questões de tempo na minha agenda de trabalho ainda não conseguimos começar a filmar. No final do ano passado tive mais  uma outra ideia e estou com a intenção de concluir esses dois projetos simultaneamente esse ano. Eu não gosto de falar sobre projetos ainda em curso e que podem ser alterados de uma hora pra outra por isso prefiro não dar detalhes e deixar como  surpresa.   

4 – O que você acha dessa nova geração de estilistas que vem surgindo em Minas? Aposta em algum nome?

Eu não saberia falar com tanta propriedade sobre algo que eu não tenho conhecimento a fundo. Isso pode ate parecer falta de informação mas é desligamento mesmo. Me perdoe esses novos profissionais, mas eu não sei quem são esses novos nomes. Da nova geração que eu conheço porque somos seguidores nas redes sociais tem o Lucas Magalhães que faz um trabalho bem bonito e o Luiz Cláudio que eu não sei se enquadra dentro dessa categoria de nova geração. 

5 – Você já foi premiado pelos figurinos que cria para espetáculos teatrais, e está sempre assinando figurinos para bandas, cantores e músicos. Como é o processo de criação para eles?

O processo é simples. Basta eu entender que quando eu crio figurinos, especificamente para o teatro, eu não estou criando para os meus clientes e sim para os personagens que já chegam com suas características próprias que eu tenho que captar para poder vesti los de forma coerente com os textos, as historias, ambientações, épocas etc…etc… Por outro lado quando crio para bandas e cantores eu levo muito na minha assinatura o DNA da minha marca mas sempre respeitando o estilo pessoal e as diferentes propostas musicais de cada um. Recentemente fiz os figurinos do Pato Fu, do Marcos Catarina, irmão do Vander Lee e para o novíssimo Lafetah. Cada qual com seus estilos musicais bem diferentes mas o estilo Rodrigo Fraga é notório em todos eles. 

6 – Uma vez eu li que você quando criança criava junto ao Ronaldo bloquinhos de carnaval com seus bonecos, você teve/tem alguma ligação com o carnaval?

Passamos boa parte da nossa infância e pre adolescência indo no período de carnaval para casa de familiares em Itaúna no interior de Minas que tinha um belíssimo carnaval com desfiles de blocos e ótimas escolas de samba. Eu sempre voltava pra casa com um enorme desejo de criar coisas  baseado em tudo que eu via por lá. Sempre gostei de assistir os desfiles de escolas de samba pela tv. Eu acho o carnaval uma das formas de manifestação popular, cultural e artística mais emocionante e completa que existe por unir em único espaço  tamanha criatividade, harmonia de cores e beleza. Eu atribuo ao carnaval a grande influencia na escolha da minha profissão.  

7 – Você esse ano criou o estandarte MARAVILHOSO do Bloco LGBT Alô Abacaxi, como foi o processo de criação?

O Alô Abacaxi tem um conceito e uma proposta musical que muito me agrada. Esse ano será a segunda participação deles no carnaval de Belo Horizonte mas eles ainda não tinham um estandarte forte que contextualizasse o conceito do bloco. Quando pensei na Carmem Miranda estilizada e sorridente segurando aquela jarra kistch de abacaxi de plástico, usando óculos  Ray ban espelhado com as cores da bandeira do arco íris foi por ter consciência de que ela  é uma artista adorada, venerada e constantemente homenageada pelas comunidades LGBTs do mundo inteiro. Em qualquer língua que falasse era compreendida e  sua figura sempre foi a síntese da alegria, da exuberância e da excentricidade tropicalmente brasileira. Independente de ser um bloco LGBT ou não a imagem dela traduz a beleza e a alegria contagiante do bloco que já tem muitos fãs e simpatizantes pelo pouco tempo de existência.     

8 – Como é a sua relação com o Ronaldo, entre vocês a troca de figurinhas, dicas, conselhos, vocês falam sobre os processos criativos?

Embora eu já criei uma coleção masculina para um desfile dele, nossa relação profissional é como água e óleo. Cada um trabalha da sua forma e no seu canto. Com a vida corrida que temos não sobra tempo pra trocar figurinhas. Eu evito falar sobre moda com familiares, amigos e ate mesmo com colegas de profissão. Eu acho um porre quem só fala de trabalho o tempo todo, mesmo eu gostar tanto de moda eu detesto quem o assunto é só esse 24 horas. Com meus amigos por exemplo, eu prefiro falar sobre outros assuntos a não ser que eu seja questionado sobre meu trabalho. O meu processo criativo sempre foi bem individual e solitário. Eu não tenho a quem pedir dicas e conselhos. Alguém que tenha o domínio e entenda tão bem o que eu faço. 

9 – Você também já criou para o público feminino, pensa em fazer isso novamente?

Iniciei minha carreira criando roupas femininas e quando voltei de Londres, trabalhei para algumas marcas d vestuário feminino. Sempre teve e ainda tem muita gente que me cobra uma linha feminina da minha marca mas com o meu pensamento do masculino.As vezes até da vontade de atender essa demanda mas rapidamente eu  desisto.  Más isso não significa que eu algum dia eu não vá fazer. 

10 – São 29 anos de carreira e hoje o mercado é altamente competitivo, qual o segredo digamos para continuar em alta no mercado?

Desde que eu me entendo por gente esse sempre foi um mercado altamente competitivo. Creio que o segredo para se manter é antes de tudo saber com bastante clareza quem é seu público. Criar suas próprias formulas de sucesso e não querer apoderar de formulas alheias. Seguir seu próprio instinto e ser verdadeiro com as suas propostas. Propor algo com estilo próprio e que não tenha data de validade.

11 – E para finalizar, você é uma referência e inspiração para os novos estilistas, que dica ou conselho você deixaria para eles?

A minha dica profissional seria buscar ter um conhecimento bem amplo de todos os processos que envolva o trabalho e não ficar  focado e perdendo tempo com a ilustração somente. Coco Channel nem desenhava e isso é uma prova de que saber fazer um lindo e maravilhoso croqui somente, não é sinônimo de ser um excelente profissional. O estilista não trabalha só e eu acho importantíssimo que saiba fazer de tudo, desde modelagem, corte, costura, matéria prima e mercado. O meu conselho pessoal é, seja você mesmo o seu maior crítico mas saiba a hora certa de desligar o botão EGO. Nunca tenha vergonha de dizer eu não sei o que é isso, poderia me ensinar? Nunca se ache a última bolacha do pacote mesmo que você esteja no spot light e saiba valorizar e elogiar as qualidades profissionais dos seus colegas. Trocas de experiencias nunca são demais nessa profissão pois a gente nunca saberá o suficiente. Lembre se de que falta de humildade, arrogância e prepotência são ingredientes perfeitos para portas que se fecham e até mesmo para o distanciamento de alguém que algum dia soube te admirar.

Raul Nunes

Apaixonado por fotografia e cultura - irmão mais novo da Kim Kardashian - leonino, curioso, louco por moda e apaixonado por café, amante da boa culinária e da música.

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