Guilherme Infante: criador e obra

Meu avô, meu pai, meus tios e tia sempre contaram e ainda contam histórias sobre os tesouros e riquezas encontradas por todo esse Belo Horizonte do nosso estado. Aos poucos eu também venho encontrando tesouros pelas minhas andanças, pessoas que nos inspiram e dão vida a sua arte. Como bom mineiro que sou, sempre tenho um tempo para uma prosa acompanhada daquele “cafezin” que não pode faltar.

O meu convidado de hoje é um cartunista de 31 anos que nasceu em Campos Gerais, interior de Minas. Atualmente reside em Belo Horizonte e da vida a um personagem que sempre deixa no ar perguntas e provocações sobre o que somos e o que fazemos de nossas vidas.

Prestes a lançar o seu segundo livro “Manual Para Dias Cinzentos” Guilherme Infante chega ao Trendy Dudes e nós vamos falar sobre projetos, gatos, experiências de vida e é claro sobre o seu famoso personagem O Capirotinho.

Raul Nunnes: O Capirotinho surgiu em agosto de 2014, o que mudou na sua vida desde então?

Guilherme Infante: Mudou muita coisa, em todos os sentidos possíveis. Eu estava passando por uma fase difícil problemas físicos e psicológicos, sofria de insônia então comecei a criar como válvula de escape, trabalhava como analista de sistema de segunda a sexta, mas com a criação do Capirotinho eu percebi que se eu me dedicasse e trabalhe duro eu poderia viver de uma forma diferente. A maior mudança foi essa o Capirotinho me deu a esperança para fazer outras coisas.

R.N.: No ano passado você declarou em uma entrevista que enfrentou alguns problemas porque o Capirotinho é um símbolo religioso, isso ainda acontece?

G.I.: Isso acontece todo dia, se eu olhar no meu celular agora tem alguém me ofendendo. Apesar de ser um símbolo religioso em nenhum momento eu crítico Deus, eu faço criticas a religião do tipo, eu estudei muito a Bíblia por ser de família católica e em momento algum Deus pede para construirmos Templos de Salomão. O novo testamento prega sobre amar ao próximo e não sobre acumular riquezas e poder que é o que as religiões fazem portanto eu não tenho nenhum problema com Deus, Jesus e as mensagens que eles carregam, meu problema é justamente as interpretações que são dadas, mas ainda assim eu nunca ataquei uma religião precisamente é sempre uma forma bem branda e por ser uma página com o nome Capirotinho, por natureza mal e não entendem que as vezes há uma ironia, uma provocação ideológica, um contra ponto do senso comum.

R.N.: Em maio você ira lançar o seu segundo livro “Manual Para Dias Cinzentos” no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), como foi o processo para fazer essa criação?

G.F.: São várias revistas dentro de um pocket book, o primeiro foi mais solto eu fiz 140 tirinhas inéditas e 30 que eu selecionei de acordo com o gosto dos meus seguidores, para o segundo eu criei tirinhas inéditas que serão dividas por temas, como amor, arte, política dentre outros, serão em média 150 tirinhas ao todo.

R.N.: Existem outros projetos em andamento?

G.F.: Tem, tem! Fora O Capirotinho tem a Outono uma personagem que eu criei, é um alter-ego feminino inspirado na minha mãe essencialmente. Em 2016 eu postei bastante tirinhas dela, mas minha mãe teve câncer e faleceu então nesse período eu não postei nada e depois eu não queria que a Outono fosse só uma coadjuvante na página do Capirotinho até pela relevância que a minha mãe tem pra mim, eu queria que ela tivesse algo próprio, então eu comecei a criar esse material que são aquarelas e poesias da Outono que serão lançadas em um livro.

R.N.: Você é apaixonado por cinema, já pensou em fazer alguma animação com O Capirotinho?

G.I.: Gostaria, mas não sei se faria com o Capirotinho. Talvez com outros personagens, pois a idéia do Capirotinho e sempre deixar um questionamento no ar e todo roteiro precisa de um início, meio e fim, acho que não seria possível com ele, mas com outro personagem adoraria.

R.N.: Você é atração confirmada no FIQ aqui em Belo Horizonte e é um festival gigantesco e você já deixou claro que é muito tímido. Como você lida com isso?

G.I.: Hoje eu tenho um pouco mais “as manha nisso” mas eu ainda fico suando pode ter o ar condicionado que for (risos), boca seca, olho fundo, mas eu consigo tratar e conversar com todo mundo naturalmente. Eu sou muito tímido e as pessoas falam com uma certa intimidade, as redes sociais facilitam a aproximação.

R.N.: Você investe em outros produtos da marca?

G.I.: Sim! Existe uma loja online onde já tem alguns produtos a venda, mas eu penso em expandir por exemplo uma pelúcia do Capirotinho, mas gostaria de encontrar alguém que fizesse de forma artesanal, não para ser algo mais caro, ou com pouca produção, mas eu gosto dessa idéia e valoriza o trabalho da produção manual.

R.N.: Vamos falar dos gatos! Quem te conhece ou te segue sabe que você tem um amor incondicional pelos seus gatos, quando começou esse história?

G.I.: Eles são minha vida! Não tenho eles como filhos, porque eu não mando deles, meio que eles mandam em mim (risos), tenho eles como irmãos. Bom eu não acredito em destino, mas quando eu estava prestes a mudar eu encontrei o Wolverine na rua todo machucado e doente, então eu pensei em dar os cuidados necessários e encaminhar pra adoção, mas como eu ia morar sozinho teria então a liberdade pra ter um gato, passado um ano eu adotei o T-800 para fazer companhia ao Wolverine pois eu ainda trabalha fora e desde então estamos juntos e eu levanto a bandeira da adoção, colaboro com ONG’s que realizam esse trabalho, essa é uma das poucas bandeiras ideológicas que defendo.

R.N.: Você já perdeu mais de 20kg, você se cuida e preza pela sua saúde, mas quero saber se você tem alguma ligação com a moda?

G.I.: (Risos) Como você pode ver não é meu forte, meu negócio é camisa básica e bermuda de correr, não entendo nada. Acho fantástico, conheço muita gente da área, tenho uma amiga modelo e sempre que saímos eu aviso que estou indo com minhas roupas e que é pra ela não se importar.

Prezo pelo conforto, a última vez que usei calça eu ainda trabalhava no escritório!

R.N.: Nem nos lançamentos do livros?

G.I.: Eu vou com bermuda de corrida nos lançamentos. (Risos)

R.N.: Ótimo, ótimo. Hahaha!

R.N.: Você desenha há quanto tempo?

G.I.: Há 3 anos. Comecei com uma caneta BIC e uma folha pautada, com o tempo fui aprimorando!

R.N.: Como foi o lançamento do primeiro livro “O Capirotinho: Uma dose de porquês antes do fim” aqui em Belo Horizonte?

G.I.: Bom, dois dias antes eu tive uma crise de cálculo renal eu estava dopado de remédio para amenizar a dor, eu estava verde, sem comer, sentindo dor e a base de remédio, pedia desculpa a todos pela situação, mas foram mais de 100 pessoas o que é ótimo para um lançamento independente.

R.N.: E música, o que você costuma a ouvir?

G.I.: Eu ouço de tudo, mas gosto muito de axé…

R.N.: SÉRIO??? NUNCA IMAGINEI!

G.I. Ninguém acredita, tenho coleção de abada e tudo mais! Meus cantores favoritos são na ordem, Zé Ramalho, Belchior e Fagner. Mas vindo pra cá, minha playlist fica no aleatório eu estava escutando Vivaldi, ai do nada vem uma do É o Tchan! Eu não sei dançar mas toco percussão, aprendi no colegial, a coordenadora pedagógica sugeriu que eu fizesse algumas atividades em grupo para melhorar a timidez, eu vivia no video-game e na TV, des então eu adoro músicas de candomblé, macumba, tribais, afro, axé, adoro baião, mas Zé Ramalho é meu cantor favorito, meu poeta!

R.N.: Seu filme favorito?

G.I.: Old Boy de 2003 de Chan-wook Park, eu gosto muito de cinema sul coreano, cinema indiano, cinema nacional também.

R.N.: Voltar pra São Paulo tá nos planos?

G.I.: Não, de jeito nenhum! Quero morrer em Belo Horizonte. Eu sempre falo ou você mora em BH ou você mora no lugar errado!

R.N.: Você tem uma ligação muito forte com a natureza e sempre esta fazendo trilha, quando você começou a praticar?

G.I.: Em 2014 eu comecei a correr por questões estéticas, então comecei a gostar e começou a fazer bem pra saúde, eu cheguei a pesar 90kg e eu tenho 1,70 de altura. Eu comecei a correr em grupos na cidade, mas era chato, então descobri um grupo que ia pra mata então foi ótimo juntar a prática de um exercício que me faz bem e a natureza que é perfeita! Sou fascinado por ela!

R.N.: Sempre tem alguém tatuando o Capirotinho, você tem noção de quantas pessoas já o tatuaram? Como você se sente ao ver?

G.I.: No início fiquei bem assustado, é muito louco! Qual a representatividade que uma obra minha tem para uma pessoa achar que seria importante eternizar todos aqueles conceitos na pele? Será ela entendeu direito? Será que ela não vai se arrepender um dia ao ver uma outra tirinha que contrarie aquela? São mais de 100 tatuagens, eu fico muito grato, muito mesmo quanto cartunista porque reforça o que estou fazendo, eu não quero criar seguidores cegos. Quero que as pessoas compreendam e discutam comigo de preferência com respeito e coerência, pois isso é saudável!

R.N.: Você tem algum cartunista que te inspira?

G.I.: Sim, o Lourenço Mutarelli, ele que escreveu o livro que deu origem o filme O Cheiro do Ralo, gosto muito da obra dele é densa, melancólica, reflexiva com toques de comédia, humor negro e escapismo. Tem o Alan Moore e o Neil Gaiman que são mais cartunista tradicionais e eu gosto muito também.

R.N.: Você lançou o primeiro livro em setembro do ano passado e não se passou nem um ano para lançar um outro com ilustrações inéditas, como foi definido esse lançamento?

G.I.: A editora queria lançar um por ano e eu estava muito na vibe pra lançar outro livro, um pocketbook na verdade pois a idéia do Capirotinho é aquela coisa entre um café e outro e refletir. Então entramos em acordo em relação a quais eventos iríamos comparecer pra lançar e o FIQ que vai acontecer em maio seria uma ótima oportunidade, então aceitei o desafio e além de ser super gratificante eu posso me dar o luxo de falar que lancei dois livros em um ano. Eu sempre estou desenhando, várias coisas me inspiram diariamente.

R.N.: Podemos esperar então muita coisa sobre a política atual?

G.I.: Sim, eu não queria colocar um capítulo de política, porque abordar o assunto hoje em dia é dar um tiro no pé. A grande maioria da população tá dividida, direita e esquerda, mas a minha intenção é fazer com que ambos os lados reflitam, pois há visivelmente políticos imorais dos dois lados. As tirinhas de política são mais abrangentes, reflexivas e sim tocam um pouco na ferida.

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