Ele se chama Luiz Claudio da Silva

Um dia desses eu acordei e pensei: “vou fazer uma série de matérias para falar dos pretos que me inspiram, os pretos que se destacam no que fazem, os pretos que falam o que pensam, aqueles que têm atitude e coragem; precisamos falar sobre eles e citar seus nomes”. Assim, criei a Ele se chama 

Selecionei um influencer, um músico, um escritor e um estilista que conquistou o meu respeito e admiração e está prestes a conquistar o mundo. Ele se chama, Luiz Claudio da Silva, ou Luiz do apartamento 03. Eu conheço a apartamento 03 há algum tempo e confesso que foi amor à primeira vista. Alguns meses atrás, no evento Proação Fashion Day, por intermédio de uma querida amiga (obrigado Elaine <3), tive a honra de conhecer o Luiz após ter assistido pela primeira vez um desfile da marca. Recentemente estive em São Paulo e tive a oportunidade de assistir a sua oitava participação no SPFW, um desfile que me despertou a vontade de conhecer um pouco mais sobre ele e depois de algumas pesquisas eu tinha ainda mais certeza de que precisava falar sobre a sua trajetória.

Luiz Claudio da Silva, nascido em Uberlândia e radicado em Belo Horizonte, formado em moda pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2000, filho caçula da Dona Wanda, costureira, conquistou um grande feito quando ainda era estudante. Aos 26 anos, o rapaz que já tinha sido office-boy na adolescência e que ganhava a vida sendo desenhista de uma fábrica de armários de cozinha, foi até Hong Kong para receber o terceiro lugar do concurso internacional Smirnoff Fashion Awards, em 1999. Após três tentativas de concorrer ao prêmio, a sua inspiração para o vestido apresentado na edição em que ganhou era de uma mulher que viveu por 200 anos e o remendava, ao longo do tempo, com os materiais disponíveis. Aos poucos, o junco deu lugar a fios de plástico e a trama ficou mais flexível sem perder o ar de matéria-prima natural. Em 2001, com apenas uma arara, uma máquina de costura, algumas réguas e papel para fazer moldes, ele começou a fazer trabalhos por encomenda nos finais de semana, e durante a semana trabalhava pra outras marcas. Mas foi em 2006 que o jogo virou. A pedido da sua amiga e stylist Mariana Sucupira, ele fez uma encomenda de peças exclusivas no seu pequeno apartamento de número 03 e não parou mais. Assim surgiu a já consolidada marca que leva o nome do seu antigo apartamento.

Ainda quando criança ajudava a sua mãe no acabamento das roupas fazenda uma barra aqui, pregando um botão ali, tudo com muita perfeição. Caso contrário, Dona Wanda mandava refazer, e eu tenho pra mim que isso é um dos fatores que o tornou o homem e o excelente profissional que é hoje – quem conhece o trabalho dele sabe do que eu estou falando. A qualidade e excelência está presente em todas as peças, que já vestiu celebridades como Ludmilla, Ivete Sangalo, Pabllo Vitar, e assinou modelos exclusivos para Fafá de Belém usados na sua turnê de 40 anos de carreira. E não poderia deixar de citar a Iza, que já usou por diversas vezes looks da marca, inclusive em seu último clipe, “Dona de Mim”.
Quem conhece sabe que ele tem medo de usar cores, e na última edição do SPFW, eu pude testemunhar de perto mais um grande feito dele. Luiz trabalhou cores fortes e vibrantes para sua coleção de verão ’19, saindo totalmente da sua zona de conforto. E o motivo que o inspirou a tal ousadia vai além do mercado, que isso explicarei em seguida, mas garanto ser uma bela mensagem.

O desfile começou ao som do hino “This Is America”, de Gambino. Aos poucos, a trilha foi mudando, e um casting formado apenas por modelos pretas e maravilhosas ocuparam a passarela. Os primeiros looks que surgiram eram pretos com detalhes bordados, e aos poucos o branco surgiu. Logo em seguida, as cores vibrantes apareceram, como o rosa, o laranja e o azul, que finalizaram o desfile. Vocês me conhecem e sabem que eu não ficaria satisfeito em apenas contar um pouco da história do Luiz. Assim sendo, o convidei para um bate-papo para falar um pouco mais sobre a sua vida e carreira e também sobre seu último desfile no SPFW.

Raul – Me conte um pouco dessa sua obsessão pelo preto.

Luiz – Eu nunca parei para pensar nisso, mas na época da faculdade eu usava muita camisa branca e calça preta, em função de não ter grana e eu estava sempre arrumado. Cores como o azul, vermelho e o verde não tem tanta durabilidade quanto o branco ou o preto, obviamente depende do cuidado, depois de uma certa idade eu parei de usar camisa branca pois comecei a desenvolver uma barriguinha (risos) e comecei a usar o preto diariamente, nunca achei que fosse uma obsessão até um dia que postei uma foto de camisa branca que um amigo fez e alguém comentou: “olha de camiseta branca”. O preto para mim ele passa uma imagem muito chique de estar sempre bem vestido.

Raul – Como foi trabalhar com cores no seu último desfile no SPFW?

Luiz – Então, eu sempre acho mais confortável, confortável no sentido de usar, pois você pode usar um look preto de manhã e se tiver um compromisso a noite pode usá-lo também pois você sempre vai aparentar estar bem arrumado. Roupas claras sujam ou mancham com maior facilidade, o branco então nem se fala e na hora de montar o desfile inevitavelmente eu sempre pegava cores escuras, se você prestar atenção desde o meu primeiro desfile é possível ver cores mais de formas mais intensas e dramáticas, eu tive muito medo de fazer uma coleção muito colorida, com muito vermelho, muito azul, muito amarelo e o amarelo gritava e eu fiquei pensando como fazer um desfile com todas essas cores e manter a ideia da mulher chique, existe um processo de testes para chegar ao resultado final principalmente das peças em degrade que são estampas digitais e quando as peças estavam prontas na arara eu fiquei pensando: será que continua sendo chique? Será que eu continuo oferendo um produto chique dentro desse universo tão colorido?

Raul – Foi um feito muito grande na sua carreira, eu vi muita gente comentando sobre ele nos dias seguintes.

Luiz – Foi um dos desfiles que eu fiquei mais feliz por ser algo desconhecido para mim! Agora eu fico pensando o que vai ser do próximo SPFW. acho que já posso me aposentar. (risos)

Raul – Como é ser um negro bem sucedido num mercado tão elitistas?

Luiz – A gente tem que usar da inteligência emocional para dar conta de conviver com alguns fatos, pois é difícil manter a calma diante de situações onde a pessoa te trata mal ou trata um semelhante, como por exemplo um garçom ou um porteiro que são lugares onde a sociedade normaliza como lugar do negro e eu me pergunto se eu seria tratado de tal forma se eu não fosse quem sou.

Raul – Você já passou por alguma situação?

Luiz – Já, como a marca não leva o meu nome e até então eu não coloca a minha cara, me posicionava, e houve situações das pessoas serem apresentadas a marca e a maioria das vezes o Léo que é meu marido estava ao meu lado e elas se dirigiam a ele e falavam: “Parabéns você é um grande estilista!” As pessoas associam que se um casal tem sucesso e se esse casal é interracial o branco provavelmente vai ser o bem sucedido. Então eu comecei a dizer quem fazia a roupa, comecei a me posicionar e eu acho importante inclusive para as outras pessoa que são negras que estudam e que sonham trabalhar com moda e é complicado ser o único negro de um bom restaurante, ou de uma classe de avião, além dos seguranças e garçons, então eu acho importante me posicionar e colocar minha cara as vezes nas redes sociais, mas espero que as pessoas entendam que isso não é promoção da minha imagem, pois eu não quero elogios, eu nunca estive no lugar do gatinho, mas as vezes acontece. Quero que elas entendam que todos devemos ser bem tratados.

Raul – Você levou poesia para a passarela do SPFW e que quis passar uma mensagem através do desfile que mensagem foi essa?

Luiz – Era um momento delicado, pois no domingo seguinte iria acontecer o segundo turno das eleições e é muito óbvio o meu posicionamento, ele nunca seria uma opção para mim, é claro que eu tenho clientes que pensam diferente e isso é democracia, entretanto eu queria deixar claro o meu posicionamento político. O medo das cores que eu tive no desfile foi uma forma de deixar claro que cada pessoa tem um o seu medo e que às vezes a gente tem que conviver com ele, eu estava muito abalado antes do desfile porque começaram a acontecer coisas muito próximas, é claro que você tem empatia com a dor do outro quando você vê relatos nos jornais e nas redes sociais e quando acontece muito perto você muito apavorado. Eu tinha todos os elementos para fechar o desfile e eu não sabia o que eu queria fazer e como fazer, eu estava travado e no meio de tudo isso eu tinha que fazer o vestido da Iza que ela usou na última edição do Grammy Latino e era um momento muito importante para ela e eu não conseguia chegar em um resultado, eu estava muito abalado. Foi difícil ver que as pessoas não tinham empatia com a dor do outro, que elas não se preocupam com o próximo, então quando eu resolvi finalizar o desfile eu escolhi um casting todo negro, com “This Is America” como trilha sonora era pra deixar bem claro o meu posicionamento em relação ao momento que estávamos vivendo.

Raul – Você inaugurou sua primeira loja no dia 01 de dezembro de 2015 e como é para você que é um homem negro, gay que saiu do interior de Minas e que usava o uniforme feito pela mãe abrir uma loja no principal bairro de moda de São Paulo?

Luiz – Você sabe que eu não consigo descrever isso como uma grande emoção, eu sinto muito mais emoção quando estou em algum lugar e passa alguém usando uma peça minha e não sabe que ela foi feita por mim, ou quando eu recebo fotos no direct de pessoas dizendo que foram elogiadas a noite inteira por causa do look que estavam usando, e eu confesso que eu estou incomodado por não conseguir responder todo mundo, mas esta uma loucura esses dias eu não sou uma pessoa inacessível eu sou muito grato e acho isso incrível!

Raul – Sua mãe era costureira e foi uma grande referência para você, existem outras referências? 

Luiz – Ela foi uma referência clara em qualidade, pois naquela época não havia máquina de acabamento fazíamos todo o acabamento a mão, isso foi muito importante para mim, e sim eu tenho outras referências mas eu sempre acho que vai ficar faltando, pois é um universo grande e não se limita apenas a moda e ao design e são várias pessoas que são incríveis, eu tenho conhecido um pouco mais sobre a Djamila Ribeiro que tem uma história incrível e eu penso porque temos três ou quatro igual a ela, porque não se têm mais? E eu paro para e vejo que tem o lado idiota, tantas pessoas idiotas com influência e um poder de fala tão grande é chocante, eu fico revoltado as pessoas deviam se espelhar em pessoas como ela, e fora ela tem a Iza, tem a Fafá de Belém que eu cresci vendo é muito emocionante, sendo gay é difícil você não admirar mulheres como elas.

Raul –  Falando em música, você veste de Maria Bethânia a Iza e isso passando por Fafá de Belém, Pabllo Vittar, Ludmilla e Anitta, como é desenvolver esses projetos?

Luiz – Na verdade eu não sei explicar como tudo isso acontece mais elas são tão elogiadas e se sentem seguras que não querem vestir outra coisa ou outra pessoa, tudo isso que já fizemos leva pouco tempo com excessão do Grammy que foi planejado desde o dia que ela recebeu a indicação e ela me ligou e disse que queria que fizesse então e já tinha essa responsabilidade até mesmo antes do meu desfile, o da Fafá quando eu fiz o figurino dela para a turnê de 40 anos de carreira, também foi bem planejado porque tem todo um processo juntamente com o espetáculo, agora quando é um clipe (nossa inclusive tenho que ligar pra uma pessoa, risos) você tem cinco dias pra fazer a roupa, é tudo muito rápido e quando é assim eles vão direto em quem eles tem mais segurança.

Raul – Como é conciliar casamento e carreira?

Luiz – É difícil, eu não sei se indicaria! (Risos). No final das contas dá certo, ano que vem completamos 17 anos e nos estamos juntos desde o início de tudo, compartilhando os nossos sonhos e superando as dificuldades.

Raul – apartamento 03 para fora do país?

Luiz – Existe algumas conversas, na verdade várias conversas mais é tudo muito difícil é muito burocrático e primeiro você tem que dar conta da história nacional, de atender a sua distribuição nacional, porque senão você começa a atender lá fora e deixa o seu mercado interno em falta. A marca é daqui, são para as pessoas daqui e lá fora o público é completamente diferente, lá fora é uma chegada, mas existe a possibilidade.

Raul – Uma pessoa que você sonha em vestir?

Luiz – Um monte de gente vai morrer de ciúmes, mas existe e desde quando eu era criança e tinha uma vida muito mais difícil, mas dinheiro eu tinha que era para comprar LP da Bethânia e eu sempre quis vestir ela e quando eu vesti eu falei que não precisava mais vestir ninguém. Obviamente depois dela veio muita coisa, mas ter vestido ela foi emocionante, pensando hoje seria incrível vestir uma Rihanna, uma Beyoncé e não são coisas impossíveis. A Djamila eu nunca vestir mas ela eu não mecho com ela porque ela ama o Izac Silva e eu também amo ele, mas uma hora vai chegar a nossa hora.

Raul – E sobre os rapazes que vestem apartamento 03?

Luiz – Eu amo! Inclusive algumas drags também começaram a vestir a marca, fiquei muito feliz em ver a Penélope vestindo nossa marca.

Raul – Sobre o vestido Grammy?

Luiz – Eu fiquei muito nervoso, foi uma responsabilidade muito grande era como fazer um vestido de noiva, um sonho, ela tinha na cabeça dela que era pink e ela me mandou o que ela pensava e chegamos naquele resultado!

Raul – E sobre o figurino de Dona de Mim?

Luiz – Fizemos ele em 15 dias, foi outra responsabilidade muito grande, a Bianca me ligou e disse que ela queria um blazer e uma calça rosa para um artista plástico do Rio finalizar ele com o grafite, o rosa que eu tinha disponível não era o que ela queria então sugeri que fosse branco e o grafite rosa, ela gostou e deu certo, aliás muito certo ele acabou vestindo ela para a capa do single e eu fiquei muito feliz em ter feito esse trabalho para uma música com essa.

Imagens @fotosite

Raul Nunes

Apaixonado por fotografia e cultura - irmão mais novo da Kim Kardashian - leonino, curioso, louco por moda e apaixonado por café, amante da boa culinária e da música.

Deixe uma resposta